domingo, 13 de junho de 2010

em defesa da amélia

Quem me conhece sabe que eu sou um preto fajuto e sem vergonha.
Agora que estou nessa fase de reestruturação e tal, resolvi virar um preto de verdade, um verdadeiro orgulho da etnia. Comecei trabalhando feito um mouro em empregos desgastantes. Depois fui tratar de ficar forte, pra deixar de ser neguinho e virar negão (Bill Fifiti Centi).E por fim, estou escutando mais samba. Caçando coisas no youtube, indo com mais frequência na Casa São Jorge. Comprei até o vinil do Jamelão pra ouvir lá no Allan. Isso tem me feito um bem danado. Ouvir os caras do passado chorando suas lamentações de maneira tão bonita faz com que o meu sofrimento não se sinta tão estrangeiro. Sofrer de amor quando se ouve samba é resignificar a dor.

Enfim, vamos ao ponto. Estava ouvindo esses dias o Ai Que Saudades da Amélia, samba escrito por Mário Lago e musicado por Ataufo Alves em 1941. Me surpreendi enormemente. Desde a meninice eu ouvia que a música da Amélia era machista. Ouvia as mulheres dizendo que não queriam mais ser Amélia. Que quem mandava em suas vidas eram elas próprias. Eu que nunca fui um ser muito movido pelo ouvido embarquei nessa, criando a imagem icônica de uma Amélia humilhada e subalterna.

Após abrir meus ouvidos pra música, tudo se iluminou.

"Nunca vi fazer tanta exigência
Nem fazer o que você me faz
Você não sabe o que é consciência
Não vê que eu sou um pobre rapaz

Você só pensa em luxo e riqueza
Tudo o que você vê, você quer
Ai meu Deus que saudade da Amélia
Aquilo sim que era mulher

As vezes passava fome ao meu lado
E achava bonito não ter o que comer
E quando me via contrariado dizia
Meu filho o que se há de fazer

Amélia não tinha a menor vaidade
Amélia que era a mulher de verdade"

O cara tá com uma mulher que é a maior patricinha. Daí ele fica lembrando de seu antigo amor. A senhorita Amélia. A Amélia era uma baita companheira. Não pedia arrego, tava sempre acompanhando o rolê, mesmo nos piores momentos. Já que citei o Allan logo antes, vou reproduzir uma história que ele me contou. Ele disse que num certo final de semana de uma época muito ruim pra ele, sua namorada Nádia ligou dizendo que iria aparecer em sua casa, na moradia, no final de semana. "Vc tá louca. Eu não tenho dinheiro nem pra comprar comida". Ela então respondeu: "então a gente passa fome juntos".

É isso mano. A Amélia era uma companheira extraordinária. Pra ela não importava todos os adornos transitórios do mundo. O que era importante era seu amor. Seu companheiro.

Mas então eu pergunto: se a Amélia era tão foda assim, o que caralho foi que o Mário ou o Ataufo fizeram pra que ela fosse embora. Porque o sujeito não continuou com ela? Mulher ponta firme assim não se acha em qualquer lugar. O que teria feito a Amélia se desiludir e abandonar o seu amor?

Minha opinião: o cara era homem. E como todo homem, fez merda.

2 comentários:

-Rol disse...

Amélia era mulher de verdade. Certeza que ela tinha celulite, que nem eu.

Ná M. disse...

nesse dia que eu descobri que podia passar fome com o allan, e feliz, foi o dia em que eu descobri o que é amor de verdade. todas as mulheres ficam assim quando ama - de verdade - um homem; da mais chata e fresca a mais 'ponta firme', como você diz. é coisa que a gente se torna, não nasce assim não... eu acho.