domingo, 7 de outubro de 2007

o caveirão que carrego dentro de mim

Foi quanto tempo mesmo? Um mês? Nada, já tem uns dois meses que a cópia do Tropa de Elite vazou da mesa de edição, direto pros camelôs do país todo. Como cinéfilo devoto, sigo uma certa conduta, pra não banalizar minha fé. Uma delas é ver filmes no cinema. Isso porque eles foram feitos para serem vistos em tela grande, não em casa. Claro, alguns filmes são lançados diretamente no dvd, mas ir ao cinema tem uma importância salutar pra quem respeita o trabalho dos cineastas.

Tropa de Elite estreou ontem. Não poderia perder a estréia, resolvi ir na primeira sessão. Tomei banho, troquei de roupa, peguei o ônibus pro Campinas Shopping. Assistir a um filme não deve ser um ato passivo. Não. Ele não vem até mim. Eu é que vou até ele. E pago pra isso: $2,25. Chego ao Shopping e espero a bilheteria abrir, às 13:50. "Por favor, uma meia pro tropa das 2". "Sete reais", diz a moça da bilheteria, uma das mediadoras entre as pessoas comuns e a arte (industrial) mais popular dos últimos 112 anos. O filme não será um presente. Eu estou pagando pra vê-lo. Com 7 reais eu poderia comprar esfirras no Habbibs, Ovomaltine no Bobbs, ou um burguer qualquer no McDonalds. Mas eu pago, com prazer, o valor do meu ingresso. Meus olhos e minha alma também necessitam de alimento.

Entrego meu ingresso ao bilhereiro, e entro para o corredor da sala 1 do Box. O ar está impregnado pelo cheiro do carpete nas paredes. Gosto do cheiro. A sala está quase vazia. Subo até mais ou menos o meio e me sento na poltrona do meio. Olho para a tela gigante à minha frente e contemplo seu hipnótico branco amarelado. Sou quase que absorvido pela sua profunda imensidão. Levo meus olhos do canto direito superior para o canto esquerdo inferior, daí pro direito inferior e por fim o esquerdo superior. O teto é revestido por negras placas de isolação acústica. Ele me lembra uma noite estrelada. Mais gente chega. Reina o silêncio. Não verei o fime sozinho. É um ato coletivo, cerca de duas dúzias de desconhecidos, comungando da experiêcia de se ver um filme. As luzes da tela vão diminuindo gradativamente, até cessarem por completo. A escuridão chega. Mas não há medo. Com a escuridão, vem a luz do projetor, gloriosa, a salvar-nos a nós todos, sendo projetada na tela apagada. A liturgia começa.

E o tropa. Achei o filme ducaralho. É tenso, violento, bem filmado. E o principal: é extremamente provocador. Ninguém sai ileso. Políticos, cidadão, polícia. Contar o filme pela ótica de um capitão do Bope foi pra mim um negócio inédito, pois anos e anos acostumado a ler a história pelos olhos dos desprovidos, dos párias, e miseráveis, deixa a gente meio anestesiado, e com uma visão totalmente unilateral da realidade. E o fato da narrativa partir da polícia, não significa que o filme a exalta, nem que apóie os métodos bárbaros utilizados pelo Bope. Muita gente reclamou disso. Mas como disse o José Padilha, todos admiram Michael Corleone. Mesmo ele roubando e matando pessoas. Isso não impede que o público o ache um personagem cativante, mesmo não concordando com os métodos da máfia. E o mesmo pode ser dito do capitão Nascimento. O Wagner Moura é um puta ator, e confere muita força ao personagem. Antes dele, creio que só o Zé Pequeno (de longe, o bandido mais fóda do cinema nacional) havia empolgado tanto a platéia de filme brasileiro.

E falando em capitão Nascimento, é interessante ver como muita gente o coloca num posto de herói. Ora, parece não importar que ele mate pessoas sumariamente, que ele torture mulheres e crianças para conseguir informações, porque afinal ele é um policial honesto. É como se a honestidade o revestisse de um manto de legitimação. "Poxa, os caras do Bope mataram geral no morro" "Foda-se, os caras são honestos". Saca? A certa altura do filme, o capitão diz que só há 3 saídas possíveis praquela situação: a corrupção, a omissão, e a guerra. Mas só um homem de visão bem estreita, (mal que a grande maioria do país padece) consegue enxergar somente essas saídas. Um pouco de distanciamento histórico mostrará inúmeras outras. O lance da droga e do tráfico, por exemplo. O tráfico existe porque a droga é criminalizada. Basta descriminalizá-la, e você terá uma saída. Aliás, o filme não culpa, como muitos parecem entender, o usuário de droga pela violência. O filme critica a hipocrisia de quem consome a droga e acha que não há nenhuma ligação com o financiamento do tráfico. Esta é realidade dada. Ao consumidor da droga, não há possibilidade de comprar maconha no Carrefour, é preciso subir ao morro; à molecada da favela, pra ganhar dinheiro e se sentir importante, só se envolvendo com o tráfico; ao Bope, que se vê num legítimo estado de guerra, só resta a saída de seguir cegamente a lei e matar o maior número de bandidos possíveis.

Há diversas críticas à abordagem que o cinema dá à favela. Dizem que é sempre uma visão preconceituosa, de que lá só existe o crime. Não acho isso. Existem ótimos filmes que falam da comunidade, sem recorrer à violência. Mas existe a realidade de que o tráfico está na favela. Uma minoria infiltrada numa maioria honesta e trabalhadora, que sofre. Continuo achando Cidade de Deus um puta filme, aos moldes dos filmes de gangsters do Scorsese, e Tropa de Elite é um ótimo filme policial, que causou uma comoção inédita no país, onde praticamente todo mundo viu a cópia pirata e passou a discutir segurança pública como quem discute a final entre Flamengo e Corinthians.

Quando o filme termina, me bate aquela vontade de entrar pro Bope. É como brincar de polícia e ladrão. "Eu sou o Zé Pequeno" "E eu sou o Capitão Nascimento" "Ih, Zé, tá fudido! "Mas o que eu gostaria mesmo é que o Bope invadisse Brasília. O Congresso. O Senado. E matasse todos aqueles filhos da puta. Isso sim seria justiça. Uma verdadeira missão cumprida. Só assim eu aplaudiria o Bope de pé.

5 comentários:

Harry disse...

Só acho uma pena que tanta polêmica desvie a atenção do drama do filme. Puta drama de guerra ducaralho mesmo! Capitão Nascimento chorando por ter escolhido o cara errado ("você não é caveira, você é moleque!") me fez chorar e me sentir mal como nem filme de criancinhas doentes faz.

-Rol disse...

Eu concordo com cada palavra.
"07, traz a doze!"
Fantástico!
Demorei pra ir ver... mas desde o trailer tava com água na boca.
Mas me deliciei.
Ah, Wagner Capitão Nascimento Moura!
Impressionante a atuação do cara. Fiquei sabendo que existe um documentário, que o verdadeiro Cap. Nascimento conta o que aconteceu lá durante a visita do Papa. "... não-sei-o-que-lá de uma guerra nao declarada", já viu?
To indo atras pra ver se encontro.
Eu amo você.


" - E esse tênis aqui?
- Ih, ganhei...
- Ganhô nada, tu perrrdeu."

João disse...

palmas para o cinema nacional! um puta de um filme bem feito, em todos os aspectos, abordando um tema que perturba realmente e nos faz pensar. a única coisa no mínimo duvidosa é a afirmação de que no bope não entra corrupto. talvez isso seja, como vc mesmo disse, uma maneira de fazer a população tolerar as ações violentas da tropa. mas o filme é realmente bom.

bill disse...

O documentário a qual a -Rol se refere é "notícias de uma guerra particular" do Jõao Moreira Salles e Kátia Lund. O mesmo policial do Bope aparece no filme anterior do Padilha, "Ônibus 174". E vale a pena, pra se entender a situação caótica de nossa sociedade, ver "Quase dois Irmãos" de Lúcia Murat.

rei disse...

bom
eu já disse o que achei do filme

o que me preocupa
é que com essa visão do diretor, sai com o pressentimento que a unica solução para o brasil é o BOPE

FODA-SE to afim de tranzar hoje! e ver cannibal corpse

flw