quinta-feira, 30 de abril de 2009

parece mas não é

O capitalismo tá no bico do corvo.
A crise financeira expõe os pontos fracos deste sistema que tras felicidade a tão poucos e miséria a tantas pessoas. É muito difícil não se pensar na evidente não-viabilidade desse conjunto de crenças que sustenta um quadro de desigualdade tão lamentável. Agora pouco eu fui buscar uma pizza ali na esquina, pra comer aqui no bar. E então pensei sobre algumas coisas.

É certo que o desemprego é foda. Meu pai, em meados dos anos 90, já ficou desempregado, e tenho algumas lembranças dessa época, lembro que algumas pessoas da igreja nos ajudavam com a doação de cesta básica. Me lembro muito bem de uma irmã da igreja batista do guanabara, esqueci seu nome agora, que fez uma compra completa e levou pra gente, lá em casa. Lembro que meus olhinhos brilharam quando o porta malas se abriu. Enfim, o desemprego talvez seja o meior dos problemas do mundo hoje, porque é através do trabalho que as pessoas conseguem dinheiro, e é somente com o dinheiro que se consegue comprar comida, roupas e outras tantas coisas não tão necessárias assim. A pouco tempo a GM anunciou que até o final do ano demitirá 10 mil funcionários. É gente a dar com rodo!

Estava pensando sobre esse lance de trabalho e talz.
Vejo algumas pessoas próximas a mim reclamarem que não conseguem trabalho. Mas é foda. No woodstock mesmo a gente ficou um tempão sem alguém na segurança. Tinha cara que ia um dia e não voltava mais. Com muito custo conseguimos um sujeito de confiança pra trabalhar lá. Até hoje precisamos de alguém pra olhar os carros, mas ninguém aparece, por mais que nós anunciemos nos estabelecimentos vizinho, ninguém aparece. Tinha um cara que chegava a tirar 70 conto por noite no wood, só olhando carros, mas ele era um pilantra filhadaputa que sumiu sem pagar uma dívida de catuaba. Enfim, é muito difícil conseguir um bom funcionário pra trabalhar.

Estou me recordando dos garotos aqui do bar. O Bruno terminou o ensino médio e veio trabalhar com a gente. Ele ganha uns $40 por noite, e, após um tempo economizando, pagou um curso técnico de radiologia e agora é um estagiário do hospital samaritano. Já o Luan, que trabalha na portaria, só estudou até o segundo ano do ensino médio, e agora se arregaça trabalhando num lava carros, o que é massa, mas não dá nenhuma perspectiva de futuro. É foda, mas eu vejo que um se esforça, enquanto o outro diz que a vida é foda e acaba aceitado um estilo de vida que é bastante limitado.

Não gosto de falar isso, porque parece que eu sou um tremendo reaça, daqueles que acredita que é só você se esforçar que vai prosperar na vida. Sei que não é assim, simplesmente não há emprego nesse mundo pra tanta gente desempregada. Mas eu acredito sim que tem muita gente folgada querendo que as coisas aconteçam do jeito que elas querem, e esnobam empregos que não consideram dignos enquanto reclamam que não há emprego.

Acho que fica parecendo muito que eu sou um grande conservador filha da puta.

Parece, mas não é.

sobre escolhas contornáveis (ou sua impossibilidade)

Muito se fala da vida ser feita de escolhas.
Existe aquelas que são irreparáveis, como por exemplo cometer uma violência contra alguém, fazer uma tatuagem, ter um filho, e por aí vai.
Contudo, existem uma série de outras escolhas que no fim das contas não vingam. Você decide que irá estudar para ser ator, mas abandona o curso na metade pra estudar administração e tocar o negócio da família. Ou então você se casa e tece planos para uma longa vida a dois, recheada de carinho, filhos, casa da sogra no domingo. Até algo mudar e vocês descasarem. Essa des-decisão, esse retorno, o que é? Seria um avanço ou um retrocesso.

Eu fui vegetariano por dois anos. Me sentia bem comigo mesmo, sabendo que animais não precisavam morrer pra que eu me alimentasse. Mas me irritava aquele patrulhamento vegetariano, me sentia de alguma forma tolhido dos meus direitos de plena escolha. Voltei a comer carne. Isso é bom ou ruim? Eu estou exercendo minha liberdade ou minha mesquinhez?

Quando penso em Deus a coisa só piora. Dez anos de cristianismo, e o que eu sou hoje? Sei lá, acho que um agnóstico, alguém que acha ser possível uma vida plena e feliz tendo o homem como medida do próprio homem. Eu piorei ao me afastar de Deus, ao fugir de seus desígnios, ao rejeitar o plano que ele tinha pra minha vida?

Eu tenho um bar. Eu vendo álcool e cigarro pras pessoas. Não sou ingênuo, sei que não é certo. Mas será que não é certo mesmo? Quanta diversão o meu bar não proporciona? Mas não seria essa diversão vazia, desprovida de propósito?

O que fazer?

O que é necessário fazer para se viver uma vida justa, boa e feliz?

Que caminho seguir?

terça-feira, 28 de abril de 2009

sobre processos criativos

Pra conseguir ler isso, é só clicar na imagem.



mano, quem são vocês?

Interessante notar os parcos comentários que recebo neste blog.
Muitos são amigos queridos que sempre dão um pulinho por aqui. Mas outros eu não faço a menor idéia de quem são. Ou porque o nome não me é nem um pouquinho familiar,ou porque o leitor/comentarista usa um pseudônimoindecifrável.

Veja o comentário do Marcos, por exemplo, no meu último texto. Gostei muito do que ele escreveu, mas, oh deus, quem é você?!?!? Fico curioso, e acho isso um sentimento legítimo. Daí teve um Jack Hammer que elogiou meu texto, e que aparentemente não gosta de los hermanos, mas eu nem sei de quem se trata. E o/a tal de Nova Reunião, que disse um "eu te amo", o que me deixa um pouco tenso de dúvida.

Enfim,
continuem comentando, mesmo que eu não faça a mínima idéia de
quem você é. No fim das contas eu sempre fico muito feliz quando
alguém comenta um texto.

:D

terça-feira, 17 de março de 2009

.........

Uma das grandes alegrias da minha infância foi ter podido brincar muito no quintal de casa. Passaava a tarde toda construindo cidades, povoados, resistentes fortes de terra que estavam destinados a entrar em guerra contra as cidades de terra do Fernando e as cidades de terra do Jefferson, meu irmão. Eu me lembro das vezes em que a mamãe nos levava lá no bosquinho. Me lembro de toda a criançada construindo castelos de areia, e eu construia o meu com muito mais dedicação e esmero que qualquer outro ali. Lá pras 5, 6 da tarde, era hora de ir embora. E então toda a molecada se divertia destruindo aquilo que havia criado. Acho que se sentiam como o Deus do Antigo Testamento destruindo Sodoma e Gomorra, ou mandando o dilúvio à Terra. Todos gostavam de fazer isso, menos eu. Eu não destruía meus castelihos de areia. E não queria que eles fossem destruídos. Mas sempre vinha alguém e chutava a minha obra, fazendo com que eu dissimulasse, não sem um nó na garganta, toda a minha decepção perante aquilo que aos meus olhos infantis era um incontestável crime. Teve uma vez, lá em Boa Esperança - MG, que meu primo queria destruir meu castelinho, pra gente ir embora. Ele era uns 5 anos mais velho que eu (ainda é), acho que eu tinha uns 7 anos. Eu lutei com todas as minhas parcas forças pra que ele não o destruísse, mas foi em vão. Engraçado. Esta é uma as memórias com as cores mais fortes e vívidas que eu guardo comigo. Acho que desde muito menino eu queria fazer coisas duradouras. Talvez eu nunca tenha concordado com o absoluto poder da impermanência. Um mundo cheio de coisas corruptíveis, fadadas ao aniquilamento ou ao esquecimento. Uma vida cheia de experiências descartáveis, onde raríssimas coisas eram investidas de um real valor. Droga, agora estou pensando em todas as coisas que eu queria que fossem, mas que acabaram dando em nada. E em todas as coisas que já foram, mas que agora não são mais que emboloradas fotografias num velho álbum que eu raramente folheio. Eu odeio a impermanência. Odeio o estado provisório de tudo. Eu queria que os meus castelinhos de areia durassem para sempre.

sexta-feira, 16 de janeiro de 2009

sobre sonhos e interpretação de sonhos

Hoje de manhã eu tive um sonho, e acordei bem satisfeito com ele.
Acordei às 11 da manhã.
No almoço contei o sonho pra Mazu, que deu sua interpretação.
O sonho foi mais ou menos assim:

Era uma sala de aula, com um tipão de sala de colégio interno. Só tinha garotas na sala, que estava lotada. Eu, o único homem, estava sentado num canto da fileira da frente, ao lado da Mazu. Daí a professora era tipo uma daquelas governantas austeras alemãs, daqueles filmes onde elas são tratadas por "Frau", e tinha um sotaque forte, falando o "R" bem arrastado. Ela tinha uma assistente, uma jovem que ficava sentada o tempo todo. Em pé, a Frau falava sobre alguma coisa que eu não me lembro.

Foi então que entrou na sala o Marcelo Camelo. Todos na sala ficaram muito animados com a presença dele. Ele chegou e começou a falar alguma coisa que não me lembro, acho que era sobre a vida dele. Daí a Frau "alguma coisa" (esqueci seu nome) o interrompeu e disse: "Oh, Senhorr Camelo, eu terr uma histórria parrecida na Alemanhã, foi quando...", e então a sua assistente pedia silência à chefe "Silêncio Frau, deixe o senhor Camelo terminar!"

Daí a Mazu, que estava ao meu lado, chamou o Marcelo e eu uma foto dela numa bonita moldura, uma foto onde ela fazia uma pose engraçada. Ele agradeceu a foto, e aí ela mostrou uma carta que havia escrito para ele. Neste momento, a Frau soltou: "Isso me lembrra de uma carrta que eu escrrevi...", e então sua assistente "Silêncio Frau, deixe o senhor Camelo falar", ao que a mulher se resignava, meio contrariada. Após ler a carta em meio tom de voz, ele ficou muito emocionado, e agradeceu muito. E daí uma loirinha magra que estava sentada no fundo da sala, tirou a camisa, e depois toda a roupa, deixando seus peitinhos rosados à mostra. A Mazu continuou com os presentes, desta vez mostrando um tipo de história em quadrinho, e quando ele ia ver melhor a hq, eu acordei.

A Mazu deu sua interpretação.
Ela disse que no sonho, todos os personhagens são a pessoa que está sonhando.
Portanto no meu sonho todos são eu.
Ela disse que o sonho mostra o meu desejo de impressionar o Marcelo Camelo (os presentes da Mazu), de dar pro Marcelo Camelo (a loirinha arrancando a roupa na sala), e o desejo de superar o Camelo (a Frau com suas constantes interrupções).

Doido, né.
E o mais bizarro é que eu acho o Rodrigo Amarante bem mais bonito que o Camelo!

sobre o óbvio utópico

Ok, preciso escrever uma conclusão para o post anterior.

A viagem para Araçatuba foi ótima! Todos da família da Mazu me trataram muito bem. A mãe dela me adorou, ela é uma mulher forte e séria, mas com um senso de humor sutil que é irresistível. O pai dela é um dos caras mais popstars que eu já conheci, parece uma estrela de cinema. Um cara muito bacana, que disse duas ou três coisas pra que eu me sentisse mais acolhido. A Cora, irmã da Mazu, é fóda demais, cantando Ivete Sangalo a todo o momento (também Vitor e Léo) e fazendo as piadinhas mais engraçadas à mesa.

Em resumo, foi tudo muito bom, gostei das tias, da madrinha (que é da cidade natal da minha mãe), da avó, dos tios, uma galerinha bem massa.

:D

sexta-feira, 19 de dezembro de 2008

sobre alguns pensamentos fugidios que me tomaram de assalto a alguns minutos atrás

Olá, boa noite. Meu nome é William Pereira, tenho vinte e três anos, gosto de xis salada com hambúrguer de soja, críticas de cinema do Inácio Araújo e de Woody Allen. Há um pouco mais de cinco meses, comecei a namorar uma garota incrível: linda, inteligente, divertida, com bom gosto pra arte e com a paciência necessária para aturar as minha idiossincrasias. Num momento eu tinha certeza que terminaria minha vida ao lado de gatos gordos, revendo a terceira temporada de Família Soprano, e no momento seguinte eu estava beijando a Maíra, uma garota que eu aprendia a amar a cada dia, e, pasmem, que me amava em retribuição! Fico muito feliz por estarmos juntos, faço tudo pra que a relação dê certo, e sinceramente acredito em nosso futuro habitando o melhor dos mundos possíveis, mas (pra usar mais uma expressão aristotélica), não posso me livrar das contingências do mundo sublunar.



Não se desespere, eu explico: estou tentando dramatizar ao máximo, fazer uma daquelas clássicas tempestades num copo d´água. O que acontece é que sábado (daqui a umas 30 horas, mais ou menos) eu irei pra Araçatuba, a cidade onde a Maíra mora, conhecer toda a família dela. O que inclui pai e mãe. Ok, ok, eu sei que é bobagem. É só ir lá, sorrir, ser simpático, não arrotar à mesa nem cutucar o nariz com o dedo, massa, tá tudo sussa. Mas de onde eu tirei tanta insegurança? Desde quando eu tenho problemas em cativar as pessoas?! Todos gostam de mim, sou uma rara unanimidade quando o assunto é “queridice”.E, se por fim não gostarem de mim, desde quando a opinião alheia é tão fundamental pra mim? O amor que sinto pela Mazu não é o suficiente??



Pensei um pouco em tudo isso, e no porquê eu estou tão encucado, e acho que tem pouco a ver com o medo do que vai acontecer.



Tenho pensado no que sou eu. E relembrei algo que a muito não me passava pela cabeça, que é o conceito da multiplicidade do eu (http://billmementomori.blogspot.com/2008/01/noo-de-multiplicidade-do-eu.html). Droga, acho que estou me perdendo. Nesse post eu queria falar sobre as máscaras que usamos, e como isso é deprimente quando se pensa um pouco a respeito. Todos nós usamos diferentes máscaras para lidar com diferentes pessoas/situações no dia a dia. Mesmo que o Will seja um rapaz sincero e coerente, ele não é o mesmo com a sua mãe e com seu professor de Ética, não é o mesmo com seu amigo Fábio e com seu cliente do bar. É fato. E daí eu penso: vou conhecer os pais da minha namorada. Se eu quiser que eles gostem extremamente de mim, posso pesquisar rapidamente sobre quais são suas áreas de interesse, e daí conversar sobre aquilo que os interessa. Mesmo que eu não goste de economia, posso conversar com o Pai sobre o mercado financeiro. Mesmo que eu não goste de jiló, posso saborear o ensopado de jiló da Mãe, e tecer os mais caprichados elogios. Mesmo que ache pescaria um saco, basta mostrar um sincero entusiasmo pela pesca do Tucunará aos Tios que logo serei considerado um garoto jóia (logo após contar aquela meia dúzia de piadas que decorei especialmente pra ocasião). Entenderam? Todo ser humano obedece a certas regras de comportamento. O que eu preciso é lembrar do nome de todos, falar sobre aquilo que os interessa, nunca criticar nada, sorrir sempre, e algumas outras coisinhas, e daí as pessoas se permitirão ouvir o que eu realmente tenho a dizer, só aí vão me dar a chance de mostrar quem realmente sou. Minha crise não tem muito a ver com a questão se vão ou não gostar de mim (acho que vão, todo mundo gosta), mas uma certa birra em ter que iniciar um jogo de sedução que eu não gosto muito de jogar.



Ah, esqueçam, só posso estar maluco mesmo. Estou reclamando de barriga cheia. A Maíra me disse que a mãe dela é uma mulher sempre preocupada com o bem das pessoas, que está sempre trabalhando como voluntária em alguma causa social. E o pai dela é um político de esquerda, um cara que, junto com a esposa, militou por quase duas décadas no PT. São pessoas incríveis que estou ansioso pra conhecer. Diferente da situação outros amigos, como o Claudinei, que é negro e pobre e foi conhecer a família da namorada classe média alta, que parece ter saído de uma daquelas casas chiques de novela da globo. Ele me disse que não agüenta mais os olhares de “oh, deus, ele é negro” nos familiares da garota. Fóda, né. E o pai da mina do Gabriel, que não deixa a garota sair e é um reaça nojento e beberrão! E o pai da Hiara, ex-namorada do Fábio, nunca aprovou o namoro dos dois, nem após longos 6 anos de relacionamento.



Oh, céus, me desculpem, não quis reclamar das coisas à toa, acho que só precisava escrever um pouco sobre toda essa ansiedade que estou sentindo. O resultado foi todo esse texto desconexo aí de cima, mas acho que estou me sentindo um pouco melhor agora.

É provavel que eu use toda a sorte de artifícios de que disponho para que as pessoas de Araçatuba gostem de mim. Talvez faça isso sem pudores nenhum, já que o amor que sinto pela Maíra - que na real é a única coisa que realmente importa - é indubitavelmente verdadeiro.

E tenho dito.

um texto perdido sobre coisas desencontradas, ou sobre como eu deveria agradeçer mais à vida por ter conhecido a Mazu

Vasculhando em minhas coisas, descobri um texto inédito e inacabado, em duas versões levemente diferentes. Ia jogá-los fora, mas daí achei que algumas coisas valiam a pena, então, vou postar aqui. Foram escritos provavelmente dia 26 de junho, e, como as duas versões são levemente distintas, irei postar as duas.

[versão 1]
Acabo de assistir ao derradeiro capítulo do Aprendiz 5 - O Sócio. Desligo o televisor e fito a tela apagada à minha frente. Não era a vitória do Clodoaldo o que permeava meus pensamentos naquele momento, mas algo um cadinho mais pessoal: se a minha vida fosse um reality show do Justus, eu já teria sido demitido logo no início. Porquê? Vou me esforçar para explicar, da forma mais indireta e prolixa possível.

Há algumas semanas ocorreu uma eliminação no programa que me chamou a atenção. Ao ser indagado acerca de quais seriam seus planos para o futuro, o concorrente repondeu, ingênuamente, que pretendia se aposentar aos cinquenta anos e, em seguida, cuidar de um vinícula. O Roberto Justus só faltou subir pelas paredes. O rapaz foi abortado da competição porque, segundo o ex-futuro patrão, "pensava pequeno". Ao se retirar do programa, lamentava sua saída, porque foi uma frase, somente uma frase, que o tirou da disputa, do sonho dos dois milhões de reais. Foi um pequeno detalhe. Aparentemente insignificante.

Há alguns dias, um sujeito que se julgava conhecedor das mulheres descobriu que não entendia nada sobre o universo feminino. E essa constatação veio da forma mais desagradável e tola que se pode imaginar. Ele deveria ter se lembrado daquela máxima: comentários machistas só são proferidos entre homens, em uma mesa de bar. Era óbvio que ia dar merda bancar o malandrão perto de sua garota. Erro feio. Infantil. Daqueles que comovem quem o assiste, tamanha ingenuidade. Uma frase mal dita. Um gesto quase imperceptível, aparentemente inócuo, porém portador de grande carga hostil. Um copo de cólera. O rapaz achou que se tratava de algo pequeno, e realmente era. Pena que descobriu tarde demais que são as pequenas coisas que magoam, que machucam de verdade.

[Há uma citação escrita no final da folha]
"Não andeis ansiosos pela vossa vida, quanto ao que haveis de comer ou beber; nem pelo vosso corpo, quanto ao que haveis de vestir. Não é a vida mais do que o alimento, e o corpo mais do que o vestuário? Olhai para as aves do céu; não semeiam, não colhem, nem ajuntam em celeiros, e contudo, o vosso Pai Celistial as alimenta. Não tendes vós muito mais valor do que elas? Qual de vós poderá, com as suas preocupações, acrescentar uma única hora ao curso da sua vida?"
Jesus



[versão 2]
Acabei de assistir ao último capítulo do programa O Aprendiz, entretanto, não era a decisão de quem seria o sócio do Roberto Justus que me preocupava. A situação já havia se dilineado na minha mente: se minha vida fosse um espisódio do aprendiz, eu já teria sido demitido. Para aqueles que esperam explicações, sinto informar, mas acho que digressões são bem mais interessantes.

Há algumas semanas, um dos concorrentes do já referido programa da record foi eliminado porque, ao ser perguntado o que esperava do futuro, respondeu que planejava se aposentar com cinquenta anos e, depois disso, cuidar de uma vinícula. A resposta causou desespero em Justos. O rapaz foi eliminado do jogo porque "pensava pequeno". Ao sair do programa, se lamentava porque, segundo disse, foi uma frase, somente uma frase que o tirou da disputa, do sonho de 2 milhões de reais. Foi um pequeno detalhe, aparentemente insignificante.

Agora, como já se tornou um hábito neste blog, vou transferir o mesmo princípio para o campo dos relacionamentos. Muitas vezes, não são as grandes mancadas as responsáveis pelos maiores abalos de uma relação. Traições, bolos, humilhações. Nada disso. As vezes é somente uma frase mal dita. Um quase imperceptível gesto hostil. Uma pequena omissão. Uma maldita frase impensada. Não se trata de forma alguma de classificar essas ocorrências como tempestadess em copo d´agua, mas de entender o real sentido da teoria do caos. Bem, acho que já ficou claro que eu escrevi esse texto porque disse o que nao devia. E também acho que tá claro que eu não fiz isso por mal. Achei que se tratava de algo pequeno, sem importância. Mas são essas pequenas coisas que magoam, que machucam de verdade.

Então vi o filme do Sean Penn, na natureza selvagem. Um filme poético, muito bonito. De certa forma, perturbador. Em certo memento, o protagonista do filme tem uma revelação de grande sabedoria: "só há verdadeira alegria quando ela pode ser compartilhada". Para ele, a alegria era se sentir livre. Sem as amarras da sociedade. Junto da terra, do frio, do rio. Vivenciar outro tempo. Entrar em contato com um outro eu. Se tornar espiritualmente elevado. E, quando eu penso nessa concepção de natureza, sempre me vem à cabeça o conceito do Deus das pequenas coisas. Um deus que controla os pequenos detalhes maravilhosos da criação. Às vezes o meu desejo é servi-lo. Romper com minhas raízes e buscar na estrada o outro eu que existe dentro de mim. E então eu penso: eu realmente já encontrei meu caminho? Ou eu me acomodei na vida? Teria eu optado pelo caminho da mediocridade, ou minhas conquistas são fruto de maturidade?

Dúvidas e mais dúvidas. Questões e arrependimentos. Já se disse muito que a vida é uma peça de teatro onde não há ensaio. Todas as decisões são definitivas, irrevogáveis. A decisão certa te fará um vencedor. A outra opção só te trará amargura. Pode parecer simples, mas as regras do jogo são vagas e obscuras.

Não me resta saída senão rogar sabedoria ao Deus das pequenas coisas.

[fim das versões]

quarta-feira, 8 de outubro de 2008

sobre o inexorável

Hoje é segunda feira, dia seis de outubro. Durante os primeiros anos de minha vida, nesta época do ano, a ansiedade tomava conta de mim, e eu contava os minutos para o doze de outubro chegar. O dia das crianças era sinônimo de presentes e casa da vovó (hoje esta data não possui significado algum). A casa da vovó era o Diego, o Douglas, a Francielle, a Jéssica, o Mateus, o Vinícius e o Jefferson. Era o tio Gê, a tia Célia, a tia Leila, o Birola (que foi preso), a tia Luzia, o tio Deoclécio, o tio Paulo, a tia Lúcia, o papai, a mamãe, a vovó Nêga e o vovô João. Meu pai um dia me contou uma história da época em que ele namorava minha mãe. Ele deveria ter a minha idade. Segundo ele, uma noite os dois saíram juntos, e meu pai não tinha comunicado aos meus avós que iria estar fora. Chegou muito tarde, e o meu avô estava à sua espera, juntamente com sua raiva prestes a entrar em ebulição. Se não me falha a memória, estava bêbado. Naquela noite, mesmo sendo um adulto, meu pai apanhou. "E eu não levantei um dedo. Porque ele é meu pai. E eu amo meu pai", foi o que ele me disse. Meu avô era um homem longe de ser perfeito, mas era um homem de verdade. E meu pai sempre o amou.

Estou no meu quarto, ouvindo o 4 do Los Hermanos. Peguei alguns álbuns de fotografia pra ver. Estou vendo uma fotografia onde eu sou apenas um bebê. Estou pálido, nem cor eu tenho. Tem uma da mamãe bem jovem e grávida, e o papai com bigodinho de malandro. Pôxa, minha mãe era uma moça bonita mesmo. Todos fazem pose para as fotos comigo. Eu sou o bebê-sucesso. Agora eu estou sendo batizado por um padre barbudo. William: Católico dos 0 aos 7 anos. Protestante dos 8 aos 18. E um Agnóstico safado dos 19 aos 23. Porque é que os pais sempre tiram fotos de seus filhos pelados? Bem, ficar peladinho em 1985 era bonitinho. Se fizer isso hoje, vão te chamar de pedófilo. Este mundo está doente, perdeu a inocência. Caramba, a vovó Áurea parece tão cansada em todas essas fotos. Tanto o papai quanto o tio Chiquinho ostentam grossos bigodes, e eu uso o meu bonézinho branco pra passear no Jardim do Lago. É perto da casa da Carol, pena que nessa época nós não éramos amiguinhos. Será que eu tinha uma bunda grande ou isso é somente a fralda? Nessa daqui eu estou dando um beijinho no neném Jefferson, mas no fundo eu tinha muito ciúme dele. Acho que fui um mal menino. E um mal irmão. Talvez ainda seja um mal irmão.

Quanto mais eu avanço no álbum, mais devagar eu observo. Quanto mais eu olho, mais cortantes são as lembranças. Cada nova página pesa mais que a anterior, e esses instantâneos que traem a fugacidde da vida cutucam meus desbotados fragmentos de memórias, desenterram apertos no peito que talvez eu não quisesse voltar a sentir. Me ver em 1990 me deixa no limiar das lágrimas, e sei que essa melancolia é própria do humano, essa raça que compartilha da nostalgia do ontem. Afinal, o passado é sempre mais doce, alegre e colorido do que o embolorado presente.

O vovô João era um homem austero. A mamãe diz que, depois do derrame, ele se tornou um homem muito melhor. Mais tolerante e amoroso, sempre preocupado com os netos, fumando sossegadamente o seu cigarro de palha. Sempre que fala dele, meu pai precisa limpar as lágrimas, a saudade é quase palpável. É a impermanência. Sempre a implacável impermanência. Logo serei eu a ter filhos, e será sobre o meu pai que irei falar. Quando meu pai estiver morto, contarei suas façanhas mais incríveis aos meus filhos, quem sabe com lágrimas nos olhos, numa tentativa vã de ceder o inabalável, flexionar o implacável, amenizar o inelutável.

terça-feira, 16 de setembro de 2008

sobre sonhos que não me deixam abandonar o passado


Odeio quando esse tipo de sonho vem.
Acordo sempre de mal humor.
Um mal humor gigantesco.

uma idéia que eu tive prum curta metragem...

um rapaz conhece uma garota e os dois iniciam um namoro.
ela é vegetariana, e ele também se torna um.
após um tempo as brigas começam, e se tornam constantes.
os desentendimentos culminam num bate boca raivoso e rancoroso.
o rapaz vai embora do apartamento batendo as portas e pisando forte.
vai até a primeira barraquinha de cachorro-quente que encontra.
pede uma salsicha.
o vendedor estaca, confuso.
o rapaz então, impaciente, enfia a mão dentro das salsichas, e começa a comê-las, compulsivamente.
enquanto enfia tudo na boca, grita:
"eu te odeio! eu te odeio!"

sexta-feira, 13 de junho de 2008

relembrando crimes e pecados, de woody allen


"O fato único que ocorreu com os primeiros israelitas é que eles conceberam um Deus que ama. Ele ama, mas ao mesmo tempo exige um comportamento moral. E aí está o paradoxo. Qual é a primeira coisa que esse Deus pede? Esse Deus pede a Abraão que sacrifique seu único filho, seu bem-amado filho. Ou seja, apesar de milênios de tentativas, ainda não logramos criar a imagem de um Deus amoroso e benévolo. Isto está além da nossa capacidade de imaginação. "


-lsolado da festa? É como eu.
-Sempre fico triste nestas ocasiões.
-Parece imerso em pensamentos.
-Planejava o assassinato perfeito.
-Roteiro para um filme?
-Filme?
-É. Foi o que o Ben me disse, que você faz filmes.
-É, mas não desse tipo. De outro tipo.
-Tenho uma ótima história de assassinato.
-É?
-Um grande roteiro. Acho que bebi demais. Desculpe, vou deixá-lo sozinho.
-Não, tudo bem. Não estou fazendo nada.
-Mas minha história de assassinato tem um estranho desenlace. lmagine este homem muito bem-sucedido. Ele tem tudo. E após cometer esse ato horrível, ele começa a ser perseguido por uma culpa profunda. Ecos de sua educação religiosa, que ele sempre rejeitou,começam a surgir. Ele ouve a voz do pai, imagina que Deus vigia todos os seus passos. De repente, o Universo não é mais vazio... Ele é justo e tem uma moral. E ele a violou. Agora, ele está apavorado, está no limiar de um colapso nervoso, perto de confessar tudo para a polícia. Então, um dia, ele acorda. O sol está brilhando e sua família está ao seu redor. Misteriosamente, a crise desapareceu. Ele leva a família para a Europa, e descobre, com o tempo, que não foi castigado. Ao contrário, prospera. O crime é atribuído a outro, um vagabundo que já matou outras pessoas. Uma a mais não importa. Agora, ele está livre. Sua vida volta completamente ao normal, ao seu mundo seguro de riquezas e privilégios.
-É, mas ele pode mesmo voltar ao que era?
-Bem, as pessoas carregam seus pecados consigo. Às vezes, o que fez o atormenta, mas passa. E com o tempo, tudo acaba.
-Mas, então, suas piores crenças se realizam.
-Bem, avisei que era uma história mórbida.
-Não sei. Acho que seria difícil alguém viver com isso. Poucas pessoas poderiam viver com isso na consciência.
-Muitos carregam erros terríveis consigo. O que queria que ele fizesse? Que se entregasse? lsso é a realidade. Na realidade, racionalizamos. Nós negamos. Senão, como continuar vivendo?
-lsto é o que eu faria. Faria com que se entregasse. Assim, a sua história tomaria proporções trágicas, porque, na ausência de Deus, ele tem de assumir a responsabilidade. Aí, você tem a tragédia.
-Mas isso é ficção. É cinema. Vê filmes demais. Estou falando da realidade. Se quer um final feliz, vá ver um filme de Hollywood...

quarta-feira, 11 de junho de 2008

sobre sozinhez

Há vinte e cinco anos, meus pais estavam prestes a casar. Minha mãe era a mesma baixinha sorridente de hoje, mas meu pai era um pouco mais magro. Um dia, ele deu um urso de pelúcia de presente para minha mãe. No noivado. Eu nasci uns anos depois, e me apeguei ao ursinho. Tenho 23 anos. Não houve um dia sequer, em todos esses anos em que eu dormi em casa, em que eu não dormisse abraçado ao ursinho. Quando eu era pequeno eu tinha medo, pois achava que se eu não dormisse com ele ao meu lado, de madrugada ele iria até a minha cama e me mataria degolado. Mas enfim o medo se foi, e o hábito falou mais alto.

"Quando algum dia a idade vier e o tempo passar, quem terá ciúmes, quem vai se preocupar? Estar ao lado pra me agasalhar? Quando à tardinha o sol cair, quem fará melhor?" É isso que se passa pela cabeça de milhões de pessoas em todo o mundo. E se não passa, um dia já passou. E se não, um dia passará. É empiricamente incontestável. Isso porque a figura do Lobo Solitário é bem atraente, bastante cool. Mas a verdade é que é triste ser um homem só.

Sexta feira passada eu fui abatido por uma tristeza terrível. Aparentemente sem motivo. Solução?: Cinema. Fui ver Sex And The City. Foi a melhor opção pra levantar o moral. Só haviam mulheres e homens gays na sala, talvez porque seja realmente um filme pra bichas e mulherzinhas. Mas como eu me diverti horrores! Acho muito divertido aflorar essa minha parte mulher, que, diferente daquilo que milhões de machistas hipócritas dizem, não é nem um pouco lésbica.

Enfim, o que quero dizer é que Carrie, Samantha, Charlotte e Miranda são novaiorquinas divertidas, abusadas, fabulosas, independentes, maravilhosas e blábláblá. Mas foi um alívio o filme ter chegado ao fim, porque eu não suportava mais tanta futilidade. Dinheiro, roupas de grife, restaurantes caros, bolsas de grife, jóias e toda essa artificialidade, puta merda, uma hora começa a dar nojo! Tudo é magnificamente chique e glamuroso. Mas a overdose de luxo foi tanta, que eu senti falta de ver um apartamento velho cheio de roupas espalhadas. De uma livraria. De uma pequena loja de discos. Em resumo, da novaiorquice do Woody Allen.

E esse é o ponto: mesma cidade, diferentes perspectivas.
Há muita gente no mundo. Cada um com seu modo de vida.
O meu modo de vida é bem diferente da maioria.
E certamente eu nunca sairia com as garotas do Sex and the city. Elas fatalmente me achariam um saco e, em contrapartida, a futilidade delas iria me irritar muito. Ser um homem só, neste caso, seria uma acertada escolha deliberada. Afinal, há sempre a esperança de achar o m&m vermelho em época de promoção.

Bem, este é o primeiro doze de junho em que eu não estarei sozinho. Agradeço à Bruna, por sua paciência. Hoje vamos ver o novo filme do velho Woody, e essa é uma prova irrefutável de que tanto eu quanto ela sabemos muito bem fazer nossas escolhas.

E meu ursinho continua muito feliz com a minha companhia.

situações edipianas

Eu tinha quanto, einh? Uns seis, sete anos. Íamos praticamente todo domingo pra casa da vovó. Enquanto os adultos conversavam, a criançada ia brincar. O que eu mais gostava de fazer naquelas tardes bucólicas, depois de ver o Van Damme ou o Indiana Jones na temperatura máxima, era caçar pedras para incrementar a minha já numerosa coleção de pedras. Às vezes eu ia procurar cacareco lá pra baixo da roça do vô João, pra montar invenções. E também me lembro de uma época em que eu ia colher flores. Ou melhor, apanhar mato. Manja um mato que dá uma flor comprida e fina, meio rosa, que faz cócegas se vc passar na nuca? Então, eu me lembro de ir com meu primo Diego, ou com o meu irmão, apanhar essas flores de capim, lá pra cima do campinho. Quando já tinhamos algo parecido com um ramalhete, íamos pra casa da vovó. Lá, eu dizia "Mamãe, é pra você. Casa comigo?" Ela aceitava a flor, rindo, e dizia que ela me amava, mas que já era a minha mãe. Eu insistia na proposta. Ela dizia que quando eu crescesce e fosse um homem, ela já estaria velha. Eu então dizia "não tem problema, eu caso com você, mesmo que você for velhinha". E então, rindo, ela explicava que já era casada com o papai, e, com um beijo, encerrava o assunto.
Meu pai. Naqueles momentos de confusa frustração amorosa, ele era o único ser a se colocar entre eu e minha mãe. Meu desejo era que ele morresse. Queria matá-lo.

Eu era apenas uma criança.
Mas já estava em condições de compreender Sófocles e Freud.